
Então vá embora e seja feliz. nosso poeta pensa que tem direito a grandes louvores. Primeiro, porque ele foi o único entre nós que forçou seus rivais a acabarem com a monotonia de fazer graça sistematicamente com farrapos e com catação de piolhos. Esses heróis grotescos de antigamente, sempre amassando bolos e famintos, foi ele o primeiro aboli-los e desmoralizá-los. Ele acabou com os escravos que fugiam, tapeavam e faziam tudo para apanhar, saindo de casa gemendo sem parar, só para que um companheiro, depois de zombar das pancadas recebidas, perguntasse: “Que foi que houve com a sua pele, infeliz? Será que o chicote de muitas pontas tomou conta de seus flancos e estourou as suas costas?” Proscrevendo essas tolices, essa vulgaridade, essas palhaçadas grosseiras, ele criou para nós uma arte maior e, construindo-a, vestiu-a de belas palavras, de grandes palavras, de grandes idéias e de uma graça que não se encontra aí pelas ruas. Não são criaturas obscuras nem mulheres que ele põe em cena, mas com uma coragem heróica indiferente ao mau cheiro do couro e às ameaças cheias de lama. E acima de tudo combateu o monstro de dentes afiados, apesar de seus terríveis olhares de cadela que lançavam relâmpagos; cem cabeças de aduladores nojentos, em círculo, lambiam-lhe a fronte; sua voz parecia uma torrente devastadora; fedia como uma foca e tinha os testículos sujos de uma Lamia e o traseiro de um camelo. Não tive medo de tal monstro e lutando em defesa de vocês e das ilhas enfrentei-o sempre. Por esses serviços, agora é justo que vocês me concedam uma recompensa e se mostrem reconhecidos.
Autor: Aristófanes
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